A "apatia" dos músicos e a vida cristã
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Ennio Morricone. Fonte: Fram Martin |
Requiem aeternam dona eis Domine et lux perpetua luceat eis.
Quando estamos assistindo a uma ópera ou a um espetáculo de música clássica não somente escutamos, mas vemos os músicos, os cantores, o maestro, e se prestarmos atenção à performance perceberemos uma coisa: eles não se deixam levar pela música, seja ela feliz, triste, vivaz, melancólica, irante, vingativa. Permanecem focados nas notas, na partitura, no tempo.
O condutor italiano de orquestra e ópera, professor Cortese, deu o exemplo de Ígor Stravinsky, que durante sua condução, ele fazia gestos mínimos, chegava até a bocejar e olhar em seu relógio para ver as horas. Mesmo o professor Cortese se vê nessa mesma apatia - não tão mórbida como a de Stravinsky.
Essa realidade um tanto incomum nos serve também como uma analogia a nossa vida espiritual. Assim como os músicos ficam "surdos" a sua própria música, não podemos ficar surdos à música de Deus. Ao ver a oportunidade e o chamado divino para uma realidade, a nossa alma deve ser servil e filial como a de Maria e dizer: “Ecce ancilla Domini.” Estar inábil a graça de Deus é uma forma de mediocridade humana que só deseja cumprir os mandamentos, como um mercenário ou o jovem rico, e não se abre ao amor que Deus quer que nós vivamos n’Ele.
Seja na alegria, na tristeza, na vivacidade da vida ou em sua própria caducidade, na raiva, na justiça, na tribulação em que Deus chama que vivamos, devemos saber viver e sentir as emoções para aprender e entender o que Deus quer de nós para também nos santificarmos. Não consegues se alegrar, porque estás no pecado? Deus quer que nos entristeçamos pelo pecado, e nos alegremos n’Ele, confesse-se e não mais peques. Estás furioso com alguém que te fez mal? Sabe viver essa raiva e que ela não dure muito tempo. Estás com os amigos e se divertes de forma sadia? Aproveita e sabe ver as alegrias da vida e a graça que é ter um amigo.
Não podemos ser apáticos como os estoicos e nem mundanos como os hedonistas, mas sim saber viver a temperança e saber que as emoções nos fazem parte, mesmo que sejamos maculados pelo pecado original. Somos humanos e não anjos. E o pecado original faz toda a diferença em nossas ações e emoções, concede-nos a tendência do reinado do corpo e do prazer em nossa vida e sobre a alma. Ela pode castigar e escravizar nossa alma. A questão principal é em ser levado pela música de Deus, e não deixar nos levar pelos sentimentos e nossa concupiscência..
Por outro lado, devemos ser como esses talentosos músicos e condutores de ópera. Preparados, concentrados, fortes para cumprir seu dever. Tocar da maneira mais perfeita, fazer a missão que lhe fora encarregado. Cada nota, cada tríade, cada tema, cada sequência, cada cadenza importam. Se necessário para um espetáculo, vários ensaios, até meses de dedicação diária para que a sua parte seja bela, eles se doam completamente.
Temperança, fortaleza, esperança. São palavras que devem estar no coração de um católico e de um músico. Devemos ser cegos, surdos e apáticos para a nossa carne, para o demônio, para o mundo e suas tentações, como os músicos para sua própria música. A canção deste mundo não deve nos balançar para um lado e para o outro. Diante dessas situações, o verdadeiro fiel deve correr para os braços do Pai, pois somos incapazes de vencer o mal sozinho, pedindo a virtude da fortaleza, da prudência, além de uma fé e esperança inigualáveis, podemos não nos macular e nos santificar..
Os músicos não se deixam levar pela melancolia ou pela alegria da música, são firmes a cumprir sua missão, mas com amor e almejando a perfeição nas pequenas coisas. Amor, deve ser o mote de todo cristão, ele torna nossa vida moral pueril em uma ininterrupta oferta generosa a Deus. Assim amando nos tornamos perfeitos pouco a pouco, porque amor é união e Deus é perfeito.
Ativos contra à ação mundana e passivos à ação divina. Devemos ser aquele amante de música que se deixa levar pelas ideias e intenções do compositor. Há maior e mais genial compositor que Deus?
Luminous night of the soul - texto de Charles Anthony Silvestri e música de Ola Gjeilo
Long before music was sung by a choir,
Long before silver was shaped in the fire,
Long before the poets inspired the heart
You were the Spirit of all that is art.
Muito antes da música ser cantada por um coral, Muito antes da prata ser moldada no fogo, Muito antes dos poetas inspirarem o coração, Você era o Espírito de tudo o que é arte.
Nossa que lindo texto!!!!!
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